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terça-feira, 27 de julho de 2010

às nove no meu blogue - II

Pois é.

"Esta de deixar tudo para lutar por um grande amor. Aquele que acreditamos ser o amor de uma vida. Não é fácil, não é simples, não é linear, não é 1+1=2. Há muita coisa que nos faz pensar e o medo, esse elemento bloqueador de tudo o que é espontâneo, tolhe os movimentos, tolda o raciocínio, não nos deixa agir por impulso, o que às vezes também não é mau de todo, porque alguma ponderação nunca fez mal a ninguém. Mas ficar parado, aterrorizado à espera que a vida se resolva sozinha é que não. Não ajuda ninguém, não resolve nada por ninguém.

Eu acredito que quando duas pessoas gostam, a sério, uma da outra, devem fazer tudo o que puderem para ficarem juntas."

Ver tudo, aqui

quinta-feira, 17 de junho de 2010

às nove no meu blogue - I

Uff. Que já não me sinto tão allien. Amém.


"Pára tudo imediatamente! Pessoas, deixem de fazer o que estão a fazer e ajudem-me a perceber que eu ainda estou azamboada. Então querem lá ver que eu sou a única alien a achar que lá porque uma pessoa está apaixonada, tem namorado, a coisa até é séria, mas pode (e deve) continuar a sair com os amigos, a ter vida social e identidade própria, sou? É que algumas pessoas não acham. Acham que quando se tem namorado deve-se viver só para ele e com ele. Saídas com amigas ou um jantar de colegas, nem pensar, ele tem de ir atrás ou nós não vamos. Hã? Que é isto? Então quer-se dizer: antes de ele existir na minha vida, eu vivia de uma forma, tinha os meus amigos, saía com os meus amigos e os meus amigos faziam parte das minhas rotinas, das minhas alegrias e, no fundo, da minha vida. Agora, quando passamos a viver no reinado de Dom Namorado, a Pessoa (Eu) passa a viver uma outra vida e a que tinha já não tem sentido? Isto é que não me faz sentido nenhum! Já agora "rauf-rauf", não?

Quatro palavrinhas: E-qui-lí-brio. Já ouviram falar? Mais estas: bom-senso, ring's a bell?


Eu juro que não entendo porque é que há tantas pessoas a pensaram desta maneira, a acharem que o mais correcto do mundo é quando têm namorado passarem a viver em função dele e deixarem de fazer as coisas que antes gostavam, que antes lhes dava prazer. Acho que é muito saudável equilibrar os dois mundos, estar com o namorado, namorar, sair com ele, com os amigos dele, com os nossos amigos, com os amigos que passam a ser comuns, mas também ter espaço e liberdade para poder jantar com as amigas, para poder fazer coisas sozinha e para poder continuar a ser uma pessoa normal, com identidade e vontade próprias. (...)"


Retirado daqui

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Pipoca mais doce - 1

Eu nem sempre concordo com o que esta Senhora escreve mas gostei destas suas palavras:

"As relações não são fáceis, ser feliz todos os dias também não. É um investimento, uma aposta constante, um esforço. Sim, sim, sim, um esforço, digam lá o que disserem. Para que tudo corra pelo melhor, para que a felicidade impere a maior parte do tempo, para que se engulam alguns sapos, para que se aceitem algumas injustiças, para ouvir coisas boas e outras que nos partem ao meio de tão más e tão ingratas. Quando não há esforço há conformismo, e esse é o primeiro passo para o fim, para os muitos e muitos dias (meses, anos) de infelicidade total. Não faço ideia se me vai apetecer esforçar para sempre (nem acredito que alguém saiba) e já cá ando há tempo suficiente para saber que o "para sempre" é, tantas vezes, um "até que dê". E, sinceramente, mais vale um "até que dê" em pleno do que um "para sempre" miserável. Dizer que tudo são rosas é que é uma grande mentira. E vocês sabem que sim."

Ler o texto todo aqui.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Uma Pancada na Água

Os homens são uns parvos. Não se conseguem entregar por completo ao amor. Têm sempre o trabalho ou outra desculpa do género. Preocupam-se com o que não estão a fazer. Para eles o amor pode ser um inimigo. Um inimigo há muito derrotado mas do qual ainda têm medo. As mulheres são diferentes. Para elas o amor nunca é demais. Não atrapalha. É que não conseguem viver com uma alma só para elas. Por isso entre um homem e uma mulher há muitas vezes só uma coisa parecida com o amor, entre duas mulheres pode acontecer o amor inteiro. Basta ver duas mulheres a olharem-se nos olhos.
Isto são teorias. Convém ir às coisas mesmas. As palavras dela.
"O amor é incorrigível como o sol de pé e eu amo-te como o mar e a areia se deitam juntos. Nas praias interiores há uma ciência certa: as tuas ancas violentas, o teu cabelo frio.
É o tempo da seda entre os nossos vinte dedos embrulhados e os arquitectos afirmam ser preciso edificar um lugar novo para duas pessoas que estão a pensar tanto há tanto tempo com os corpos. Ouve-se só a água a atravessar a delicadeza da terra, é difícil acordar. Sais e entras pelas estações e os animais acompanham-te e eu digo que é o vinho, a metamorfose, que usamos de uma arte insensata, que comigo emigras na minha voz.
É por um nome estrangeiro que te dás enquanto ao longe o meu me escapa. É preciso chamar-te quase sem voz, estás despida escutando-te a ti mesma, descoberta. Eu sou a vítima caminhando, a minha boca impressa na doçura da tua boca, sem saber como fazer, dada à beleza repentina, inspirando o louvor. Os animais vêm comer às nossas mãos no silêncio intenso das montanhas, as noites trocadas e no meio há um espelho em que o amor se vê, aparecendo e logo indo. Enquanto permanecemos quietas, sem nada entender, uma criança anda pela terra de camisa branca aberta, desabotoada.
Sempre que penso em ti avanças em desordem no ar, e a minha memória aflita tem pressa de te alcançar, o sangue tem pressa em correr, e antes de alcançar tremo, sinto pavor em chegar. O meu coração é a criança a correr para ti e tu desapareces no interior da minha respiração, de uma dança elevada à solidão que faz arder o vento atrás de si. Sempre que penso em ti rogo pela ressurreição do tempo, pela subversão dos dias.
Meu amor, há pressa de chegar à alvorada, ser água a correr. Os animais estremecem e dormem mas eu não mais terei sono e vou despir-te tão lentamente como se tece o tecido de uma estação, os dedos a arder na doçura negra dos teus cabelos. E à volta tudo se ergue e respira e a criança passa à sombra do teu vento e fico nua numa vertigem que me sabe a sal e a mar a escutar os ruídos do amor, as duas mãos cegas atadas ao peito.
O que de ti guardo é um lenço de pétalas encostado ao rosto e o meu coração minado pelo bater das próprias pancadas, o teu corpo em silêncio pousada na delicadeza da geometria perfeita. Depois seguimos até ao fim deste tempo desperdiçado. É monstruosa a candura com que avanças, a tua mais secreta beleza, a tua mão de mulher a agarrar a minha camisa de menina.
Onde estás? A água dobra-se para que passes, as tuas ancas, o teu sexo imprimem-se na areia, voltas o rosto e perguntas: o que é?, e as palavras precipitam-se. As pessoas podem morrer por muito tempo, tu acreditas nisso. E depois podem voltar. Uma alma pouco é, duas almas são um mundo e caminhas quando te persigo a teu lado e me esqueço do meu nome, a minha boca queimada e sei que desapareceste de repente por detrás das colinas, sobre a água. Alguém vem dizer que tenho a mão direita sobre o teu coração tão branco e que também se morre de contemplar a morte, que além de grandioso é íngreme o paraíso.
É então que partes. Nesse instante, meu amor, anjos cegos cantam a minha morte. Vejo a luz que chega estrangulada ao lugar de uma paixão terrível. Partes e a tua despedida grava-se para sempre na areia, as coisas em volta respiram devagar, mais lentamente, com a tristeza. Partes e escrevem-se as primeiras letras na noite antiga e a lua nasce na minha camisa desabotoada e negra e de todos os lados ouço gritos e sangue a correr nos cabelos torturados. Partes e as crianças voltam a cabeça para reparar na mortal maneira de te inclinares na partida com um beijo, a minha camisa cheia de febre. Partes, meu amor, a pancada na água, a luz encurvada.
E sorris ainda para provar que somos eternos, mas eu sei que a idade não se faz milagrosa e ficamos presas de uma imagem em perigo voltada para o terror da paixão.
A tua blusa de perfil, as nuvens a afastarem-se, as mãos ocupando-se em ter dedos - era Maio ou Setembro - bom dia meu amor, até já meu amor, até logo meu amor, até sempre amor meu. A noite segue de um lado para o outro, as colinas afastam-se para dar passagem à tua ausência, tremo de febre, viramos ao de leve a cabeça uma para a outra, ao longe, depressa, como se já dormíssemos e ainda procurássemos adormecer, os pulmões cheios de água.
No escuro a pureza mostra melhor a sua maneira de ser, a tristeza bebe-se com as duas mãos juntas. Oiço a noite chegar como uma floresta que avança. Por favor, digo eu, quero levar comigo esta morte dos pés à cabeça. E entro pela floresta onde te deixei."


de Pedro Paixão
in Nos Teus Braços Morreríamos (1998)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Rainer Maria Rilke

For it is not inertia alone that is responsible for human relationships repeating themselves from case to case, indescribably monotonous and unrenewed: it is shyness before any sort of new, unforeseeable experience with which one does not think oneself able to cope. But only someone who is ready for everything, who excludes nothing, not even the most enigmatical, will live the relation to another as something alive.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

MEC - "Obrigados, namoradas"

Sei que as mulheres que nos amam não nos amam de maneira diferente, mas, como nunca se sabe, deixei-as de fora, falando apenas pelo meu género: a malta.

Minha amada querida. O meu pai, logo depois de se ter apaixonado pela minha mãe, disse-lhe, em pleno namoro (ela uma mulher inglesa casada, com uma filha pequena; ele um solteirão português): "Se soubesses quanto eu te amava; destruías-me já." E disse a verdade. Era tanto o amor e o ciúme que lhe tinha, que fez mal à mulher que amava, minha mãe, e mal ao homem que a amava; ele próprio; meu pai.

O amor é um castigo; é um desespero; é um medo. O amor vai contra todos os nossos instintos de sobrevivência. Instiga-nos a cometer loucuras. Instiga-nos a comprometermo-nos. Obriga-nos a cumprir promessas que não somos capazes de cumprir. Mas cumprimos.

Eu amo-te. E não me custa. É um acto de egoísmo. Mesmo que tu me odiasses mas te odiasses tanto a ti própria que não te importasses de ficar comigo, eu seria feliz e agradeceria a Deus a tua inconsciência; a tua generosidade; qualquer estupidez ou inteligência que te mantivesse perto de mim.

A sorte não é amar-te nem tu me amares. A sorte é ter-te ao pé de mim. Tu podes estar enganada. Deves estar enganada. Mas ninguém neste mundo, por pouco que me ame ou muito que te ame, está mais certa para mim.

Obrigado.


Miguel Esteves Cardoso in Público


domingo, 24 de janeiro de 2010

Fazes-me falta - 1

Depois disseste-me que foi nesse momento que os nossos olhos se encontraram. Mas eu não me lembro dos teus olhos. Lembro-me, sim, do odor do teu corpo, uma mistura excitante de rosas, canela e sexo. Talvez trouxesses ainda o cheiro de algum dos teus amantes – eras uma verdadeira torre do tombo passional, e estavas sempre disposta a ir repescar uns dados esquecidos a uma pasta antiga.

Mas nessa altura que nem sequer sabia isso. E nunca me aproximara tanto do teu corpo. O teu cheiro surpreendeu-me pela delicadeza e pela névoa erótica. Encostei o meu braço ao teu e comecei a transpirar. Sentia uma vontade violenta de me desmoronar em ti. Não, não era fazer amor. Fazer amor não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós, já feito, não o controlamos – por isso o sistema se cansa tanto a substituí-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável. Também não era foder, fornicar, copular – essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor. Como se fosse possível. Como se o amor não fosse exactamente essa fornicação metafísica que não nos diz respeito – sofremos-lhe apenas os estilhaços, que nos roubam vida e vontade. Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu. Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos. Eu, educado no preceito alimentar de que os rapazes comem as raparigas, depois de uma vida inteira de domínio dos talheres queria ser comido por ti. Queria entregar-me nas tuas mãos.



Inês Pedrosa

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um mover de mão - 1

Beijo



quando te beijo o beijo que tu me beijas
é que a flor envolve a terra que toca a flor

e é só a forma de os meus lábios dizerem que sim
e de os teus dizerem que não
que não houve tempo antes de nós


Vasco Gato


quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Egoísta, nº 32

Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor. Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam charros e putas e atiravam pedras ao rio. Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade. Mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.
Queria de ti um minuto.
Um minuto.

Filipa Leal

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Odes - 1


Ode do castigo



só mais uma menina entre outras
e o quadro negro onde escrever o teu nome a giz
como um erro ortográfico do coração.

castigo.
entre nós o alto muro do recreio
e a obrigação de permanecer só.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Cemitério de Raparigas - 1

"Se vejo uma rapariga a apaixonar-se por mim, tiro logo a conclusão acertada: “Olha que pena – mais uma que deixou de gostar de mim.” Faço tudo para dissuadi-la e fujo, mesmo que não seja preciso. É que as pessoas primeiro apaixonam-se, depois amam e, não tarda nada, começam a querer ser amadas também. Porquê? Que não lhes satisfaça só gostar, ainda percebo. Agora que não lhes chegue amar… é inaceitável. Para este género de pessoas, a ingratidão e a gula não têm limites. Quando sofrem, culpam-nos. E, pior ainda, quando estão felizes, atribuem-nos a responsabilidade. No fundo encostam-nos à parede, como quem diz “Estás a ver? Tudo depende de ti.”
Quanto menos depender de mim, melhor para todas as partes envolvidas. Só há uma coisa preferível a ser independente – é ninguém depender de nós.”


Miguel Esteves Cardoso


domingo, 16 de agosto de 2009

Luminoso Afogado - 1

"tens de cansar a ideia de que podes suportar o vazio, o aborrecimento deste país.

tranquiliza os dedos passeando-os, ao de leve, pelo abismo dos mapas que se transformam em lagos de treva.

este vácuo, visco de espelhos.

perguntas-te: para quê apavorar-me?
é para lá dos teus olhos fechados que o mundo acorda. mundo que ainda não sabes descrever.

cala-te.

olha a fotografia, nela se perdeu o teu sorriso, amarelece uma ilha.
ausência e culpa sobem-te ao espírito, e violência, violência com que rasgas a fotografia, por não poderes suportar a minha ausência e a tua culpa.

não sei o que isto tem, ou teve, de irreparável que me dá vontade de te chorar.


para que servirá contar-te todas estas histórias?
teu corpo de afogado arrefece algures em mim, dentro da minha infinita paciência de veladora.
nunca conheci outra vida que não fosse a de gastar tempo de porto em porto. vida sem sentido.
em todos os portos acordava com alguém a meu lado. tinha medo, medo de saber de que é que tinha medo.

tento cicatrizar estas chegas de sal reabertas pelo teu naufrágio."



Al Berto.

domingo, 2 de agosto de 2009

A Noiva Judia - 1

"E se mais houvesse não bastaria. A satisfação abre também as suas portas sobre nada. Ficamos quietos e não sabemos. Comemo-nos na boca e no peito. E por detrás de tudo isto há um fundo que é uma paisagem gelada."


Pedro Paixão


sexta-feira, 17 de julho de 2009

Esta coisa de gostar de alguém.

"Esta coisa de gostar de alguém não é para todos e, por vezes – em mais casos do que se possa imaginar – existem pessoas que pura e simplesmente não conseguem gostar de ninguém. Esperem lá, não é que não queiram – querem! – mas quando gostam – e podem gostar muito – há sempre qualquer coisa que os impede. Ou porque a estrada está cortada para obras de pavimentação. Ou porque sofremos de diabetes e não podemos abusar dos açucares. Ou porque sim e não falamos mais nisto. Há muita gente que não pode comer crustáceos, verdade? E porquê? Não faço ideia, mas o médico diz que não podemos porque nascemos assim e nós, resignados, ao aproximar-se o empregado de mesa com meio quilo de gambas que faz favor, vamos dizendo: “Nem pensar, leve isso daqui que me irrita a pele”.

Ora, por vezes, o simples facto de gostarmos de alguém pode provocar-nos uma alergia semelhante. E nós, sabendo-o, mandamos para trás quando estávamos mortinhos por ir em frente. Não vamos.. E muitas das vezes, sabendo deste nosso problema, escolhemos para nós aquilo que sabemos que, invariavelmente, iremos recusar. Daí existirem aquelas pessoas que insistem em afirmar que só se apaixonam pelas pessoas erradas. Mentira. Pensar dessa forma é que é errado, porque o certo é perceber que se nós escolhemos aquela pessoa foi porque já sabíamos que não íamos a lado nenhum e que – aqui entre nós – é até um alívio não dar em nada porque ia ser uma chatice e estava-se mesmo a ver que ia dar nisto. E deu. Do mesmo modo que no final de 10 anos de relacionamento, ou cinco, ou três, há o hábito generalizado de dizermos que aquela pessoa com quem nós nos casámos já não é a mesma pessoa, quando por mais que nos custe, é igualzinha. O que mudou – e o professor Júlio Machado Vaz que se cuide – foram as expectativas que nós criamos em relação a ela. Impressionados?


Pois bem, se me permitem, vou arregaçar as mangas. O que é difícil – dizem – é saber quando gostam de nós. E, quando afirmam isto, bebo logo dois dry martinis para a tosse. Saber quando gostam de nós? Mas com mil raios, isso é o mais fácil porque quando se gosta de alguém não há desculpas nem “ ai que amanhã não dá porque tenho muito trabalho”, nem “ ai que hoje era bom mas tenho outra coisa combinada” nem “ ai que não vi a tua chamada não atendida”.

Quando se gosta de alguém – mas a sério, que é disto que falamos – não há nada mais importante do que essa outra pessoa. E sendo assim, não há sms que não se receba porque possivelmente não vimos, porque se calhar estava a passar num sítio sem rede, porque a minha amiga não me deu o recado, porque não percebi que querias estar comigo, porque recebi as flores mas pensava não serem para mim, porque não estava em casa quando tocaste.

Quando se gosta de alguém temos sempre rede, nunca falha a bateria, nunca nada nos impede de nos vermos e nem de nos encontrarmos no meio de uma multidão de gente. Quando se gosta de alguém não respondemos a uma mensagem só no final do dia, não temos acidentes de carro, nem nunca os nossos pais se sentiram mal a ponto de nos impossibilitarem o nosso encontro. Quando se gosta de alguém, ouvimos sempre o telefone, a campaínha da porta, lemos sempre a mensagem que nos deixaram no vidro embaciado do carro desse Inverno rigoroso. Quando se gosta de alguém – e estou a escrever para os que gostam - vamos para o local do acidente com a carta amigável, vamos ter com ela ao corredor do hospital ver como estão os pais, chamamos os bombeiros para abrirem a porta, mas nada, nada nos impede de estar juntos, porque nada nem ninguém é mais importante, do que nós. "

Fernando Alvim