segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

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Este texto é sobre mim. Deve ser entendido com uma conversa de mim para mim. É desprovido de qualquer sentido poético. Não há ficção. Sou eu. Com tudo o que isso traz. Bom ou menos bom. Sou eu. Não é a Narcisa que escreve. É a C.

Nasci de uma mulher infértil. Durante anos a minha mãe tentou engravidar e nunca conseguiu. Depois de muitos exames, a médica disse-lhe que ela não poderia ter filhos sem ajuda médica. A minha mãe contra a opinião de todas as pessoas, achou que não estava no seu caminho ser mãe. E portanto não tentou mais. Aceitou aquele facto. Mas depois engravidou. Engravidou de mim. E foi assim que eu nasci. Depois do meu acontecer, tentou ter mais um filho mas tal nunca se veio a concretizar.
A minha chegada a este mundo foi através do corpo de uma mulher infértil. E eu gosto dessa ideia. Talvez tenha sido a partir do momento em que me contaram isto, que eu interiorizei que devia ser alguém especial. Alguém que tinha necessariamente de nascer.

Também podia acrescentar que nasci de rabo. Mas aqui já não sei interpretar o significado. Portanto, deixemos.

Aos cinco anos inventei a história que tinha sido abandonada por uma mãe chinesa e que os meus pais (adoptivos) encontraram-me à porta da Igreja da Sé. No colégio ficaram muito preocupados pela minha forma despreendida de contar aquela história e chamaram a minha mãe com muita urgência para ter uma reunião. A minha mãe teve de respirar fundo e explicar que não. Que eu não era filha de outra mulher que não ela. E que tinha era uma imaginação peculiar. A partir desse dia comecei a ser conhecida como a chinesinha. Facto esse que eu achava fantástico.

Desde muito cedo que os meus pais tentaram incutir regras que eu nunca aceitei. Sempre achei que aquelas regras não eram indicadas para mim. E foi a partir desse momento, que comecei a criar as minhas próprias demandas, fazendo-os acreditar que, na verdade, estaria a reger-me por aquele conjunto que a meu ver tão injustamente me aplicaram. Assim, naquele resvale temporal, comecei a ser duas pessoas. A manipuladora e a verdadeira na sua natureza. É também por esse motivo que o meu pai hoje em dia ainda não me conhece e duvido que isso vá mudar. A minha mãe conhece-me melhor do que ninguém. Porque se permitiu e eu também me permiti. É a minha estrutura neste mundo. Sem qualquer dúvida.

Assim, desde muito criança que desenvolvi a vontade e a capacidade de provocar. de causar sensação. de abanar outras estruturas. de não aceitar o óbvio e de desejar o grandioso. o melhor. sempre o melhor. Não tive grande noção de que os limites existiam. E a minha atitude foi quase sempre de transgressão. Até há bem pouco tempo diria.

Ainda não sei muito bem explicar o porquê dos meus 25 anos já terem tanto peso. Tantos encargos comigo própria. O desenvolvimento emocional nem sempre foi acompanhado pela maturidade. E daí surgiram as perguntas, as dúvidas e as incertezas. Sobre mim e sobre o meu papel no mundo. Uma lista infindável de mágoas já se encontrava na minha almofada. E os primeiros sinais de solidão também. O culto de saber estar sozinha e não depender de ninguém verificou-se muito cedo. Precocemente. Penso eu. Não é suposto uma criança ter uma infância tão carregada. Não é suposto. Ainda mais sendo do desconhecimento de todos aqueles que estavam perto de mim. Soube encobrir aquilo que no meu entender não era de mais ninguém. E portanto, não partilhei. Era o meu segredo.

Fui crescendo um pouco à margem dos outros. Já com árdua tarefa de tantos os segredos que guardava. Teria que me precaver e defender-me de quaisquer danos que pudessem surgir do mundo que me rodeava. E por isso mesmo a facilidade ainda hoje existente de me manter fechada. Indiferente quase às balas que vinham directas a mim. Uma construção, digo eu. Da armadura de aço que sobrevive anos após anos. Podem atacar-me. Poderão sempre fazê-lo. E sim, eu irei sentir o embate. Mas não, já não irei ao chão. Mesmo que isso signifique não sentir. Aliás, não me permitir sentir. É aí que falho também perante mim própria. A armadura muitas vezes não me torna capaz de ir além. De aguardar no meu espaço até que surja o momento ideal para me libertar. E para me dar a conhecer. E perco, sem qualquer dúvida, perco tanto de bom à conta disto.

À medida que fui crescendo, tomei conta de algo importante. Aliás, demasiado importante. Tornei-me grande e por isso mesmo, alheia a tantas coisas. Não sei compreender as pequenas coisas dos outros. Os embrulhos de personalidade. Os receios. Os impasses. Falha-me essa compreensão. Porque no caminho tumultuoso de querer o extraordinário, creio sempre que são essas pequenas coisas, os pormenores que nada dizem. que me afastam do fantástico. E por isso, perdoem-me, a minha falta de tacto para certo tipo de infelicidades, certas mágoas, certos rancores. Sou grande demais para esses detalhes. Porque não sei ficar. Não me sei deixar ficar nesses obstáculos. Sou guerreira. Agora mais do que outrora. Sou a guerreira que vai onde tem de ir para trazer a vitória consigo. Não me detenho nas curvas. Nem nas passadeiras. Vou. Simplesmente vou. Porque acredito que as coisas não irão surgir se não lutar por elas. Mesmo que em alturas me sinta cansada. De um cansaço que me deixa parada. A olhar para a rua. Como que à espera de algo que me acorde e me traga de novo à minha batalha.

E assim, resta-me dizer que tenho a consciência que nem todos têm a capacidade para me aceitar. Que nem todos estarão preparados para um vulcão. terramoto. tempestade. Porque eu sou isso tudo. Empenho-me em sê-lo. Porque de nós devemos sempre esperar grandes feitos. Nada menos do que isso.

Posto isto, não posso pedir desculpa por encabeçar cada vez mais a verdade nos meus dias. Nem ousar, repito ousar, pedir desculpa por querer sempre mais. Porque querer ir directa ao cerne. porque não me bastam as epígrafes. Não sei acomodar-me aos desígnios diários desta vida. Não sei, de todo, ficar-me. Remoendo o que poderia ter sido. Não me peçam para ser triste ou derrotada. Não me peçam para cair ao mínimo sinal negativo. Mas principalmente, não me peçam para ocultar ou controlar o que melhor eu tenho. A minha força destemida de ser e querer mais. Mas sempre com a certeza incobrável que terei de me proteger.

É isto que tenho para oferecer. E sei que nem todos têm a aptidão para me receber.

Nasci de uma mulher infértil e estou aqui porque não há vida que não precise de uma revolução.


4 comentários:

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  2. Deixo aqui os meus Parabéns á tua mãe!!!
    :)

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  3. Mais uma vez,
    Obrigada por existires.

    C./ Cátia Carlos!

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  4. A transparência da tua escrita faz milagres no ecrã infértil de um pc. Nem sempre é possível ser tão eloquente nas palavras como nos gestos. Mas tu consegues, com uma destreza de pensamento, que por vezes baralha o leitor menos atento. Ler-te é conhecer-te. Na ficção, na poesia, num texto qualquer... Ler-te é entender tudo o que dizes... mesmo quando não falas.
    Sim, a revolução parece estar eminente na tua vida... As we use to say: Enjoy it.

    Beijos.

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