sexta-feira, 7 de maio de 2010

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lembras-te, pergunto. do beijo que foi o primeiro. da brusquidão dos movimentos. da fome sede que antecede a proximidade dos lábios. da posição equiparada. dos lábios que seguram entre si outros lábios. da língua que fura a lentidão. do repouso inquieto das mãos no corpo. nos corpos. que já foram nossos e que ainda nos acompanham. quando me beijas a mim, beijas outras tantas mulheres. quando eu te beijo a ti não sei se beijo mais homens que mulheres. não importa. de tantas identidades presentes, fico-me apenas pela tua. é a tua boca que me cega e me transporta. é no beijo e na revolução das mãos que se chega até à pele. a pele que se encerra faminta até te aproximares. e aí esqueço-me esqueces-te. do que foi antes. se melhor ou pior. não, não te lembras. não há espaço. quando dois corpos se irrompem. não há espaço. para conclusões ou palavras. não há voz que se tenha por certeza. porque o tempo não avança. não passa. não se esconde. o tempo não faz a regra do prazer. da cadência do desejo. fazemos nós. em cada movimento. em cada meia lua de orgasmo. da saliva que a boca leva até ao sexo. da transpiração que se cola as dedos e inicia a viagem. por ti. a dentro. ou na superfície. o que seja. não existe amputação de movimentos. as paragens acontecem. para que possamos recomeçar. com a ousadia do diabo no corpo. outros dizem que é pecado. nos chamamos paixão. tesão. há quem chame de amor. mas não. aquele momento. este momento não é amor. é partilha. é alcance desmesurado. somos nós. eu. tu. sem verbo a conjugar. nasces nas minhas mãos. repetes-te na minha boca. espera. o que acontece quando perdes a noção de qual é a tua pele. de quem são estas mãos. este ombro sabido. o corpo erguido, encostado à parede. a violência da erupção do meu sexo contra o teu. e depois. no final é quando entendo que desfizemos-nos e que voltamos a ser duas. na cama. em pé com os pés no chão. ou onde for. voltamos a ser duas. é isto que acontece. no final, voltamos ao desencontro.

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